“Sem produzir nada”, o ganho diário de um bilionário
Para Dowbor, a dificuldade de visualizar grandes cifras impede que
parte da sociedade perceba o tamanho do desequilíbrio. Ele aponta o PIB
brasileiro — R$ 12,3 trilhões — e faz uma conta simples para ilustrar o
potencial de bem-estar caso a renda fosse menos concentrada. Na
sequência, contrasta esse cenário com a lógica financeira que remunera
mais o capital do que o trabalho.
O exemplo central usado por ele é direto: “Imagine
o dono de R$ 1 bilhão que, em vez de investir em serviços ou produtos,
compra títulos do governo atrelados à Selic, que pagam 15% de juros ao
ano. Sem produzir nada, esse bilionário vai ganhar mais de R$ 400 mil ao
dia.” Na leitura do economista, quanto maior o patrimônio, maior o
volume aplicado e, portanto, mais acelerado o enriquecimento — num
círculo que se retroalimenta.
Ele contrapõe esse ganho automático ao cotidiano da maioria: “É
algo completamente diferente do que acontece com 80% da população, que
não só não acumula, como enfrenta dificuldade em manter o que tem. O
problema deles não é ‘o que que eu faço com o meu dinheiro?’. O que
ganham nem dá para fechar o mês.” Para Dowbor, quando o dinheiro não
vai para investimento produtivo, ele deixa de gerar emprego e renda, e a
economia perde robustez.
Juros altos travam o investimento e empobrecem a demanda Dowbor descreve um ciclo perverso: a concentração de renda reduz a
demanda, a demanda fraca desestimula a produção, e a produção fraca
limita o emprego e a renda. Nesse quadro, o custo do crédito aparece
como barreira adicional para quem pensa em empreender ou industrializar.
Ele compara o Brasil com outras regiões: “Se
quiser pegar um empréstimo no banco para montar um negócio, vai pagar
25% ao ano —na China, é 2% ao ano, na Europa, entre 3% e 4%.” E conclui que, diante dessa diferença, a escolha “racional” para quem tem capital passa a ser a aplicação em títulos públicos: “Por outro lado, ele tem a opção de comprar ativos do governo que pagam 15% de juros. Por que esse sistema se mantém?”
Para o economista, a explicação envolve a captura política pelo rentismo. “Se
você visita deputados, senadores, vai descobrir que eles mantêm
aplicações financeiras e vivem disso. Eles têm consciência de que nós
temos um sistema que drena em vez de gerar recursos, o núcleo básico da
economia.”
“Escala 6x1” e o debate sobre trabalho: o problema é sistêmico Ao tratar do mercado de trabalho e do deslocamento de trabalhadores
para serviços por aplicativo, Dowbor argumenta que a discussão não pode
ficar restrita à relação imediata entre empresa e salário, mas precisa
olhar o arranjo macroeconômico.
“A questão central não é o
empresário que paga R$ 2.000 ao mês ao trabalhador da escala 6x1, que
muitas vezes decide prestar serviços para os aplicativos, esperando
ganhar mais? É o conjunto do sistema que está travando a economia.” Para ele, o travamento vem do prêmio ao capital financeiro e da compressão das políticas que poderiam elevar renda e demanda.
Arcabouço fiscal “palhaçada” e a ideia de “salário indireto” Dowbor critica diretamente a forma como o debate fiscal é formulado no Brasil. “Se,
em vez de se preocupar com o arcabouço fiscal —que eu chamo de
'palhaçada', não de maneira irresponsável—, você se preocupa com
políticas sociais, colocando mais dinheiro na educação, na saúde, é uma
maneira de enriquecer as famílias.” O raciocínio é que serviços
públicos bem estruturados liberam renda privada e ampliam consumo,
elevando vendas e lucro, e permitindo que empresas paguem melhor.
A
crítica se aprofunda quando ele descreve o que chama de “salário
indireto”, isto é, a parcela do bem-estar que não depende do dinheiro no
bolso, mas da presença do Estado na vida cotidiana. “Nas economias
que funcionam, 40% do bem-estar econômico das famílias não correspondem a
quanto elas têm no bolso, mas sim o quanto elas têm de hospitais
públicos na região onde moram, as ruas do bairro asfaltadas, o parque
perto de casa —tudo isso é salário indireto.”
Para ilustrar, Dowbor compara Canadá e Estados Unidos e, depois, Estados Unidos e China: “O
Canadá, por exemplo, tem um salário mais baixo que o dos americanos,
mas lá as pessoas contam com creche, escola, universidade, hospital,
tudo bom e de graça, parques por toda parte, água limpa.” Em seguida: “A
esperança de vida do americano é de 78 anos, ao custo de US$ 11 mil ao
ano por pessoa para o sistema de saúde. Na China, a esperança de vida é
de 79 anos, ao custo de US$ 1.000 ao ano.” Para ele, investir em
prevenção e infraestrutura básica aumenta eficiência e reduz gastos
futuros, mas costuma ser registrado apenas como “gasto” na contabilidade
do debate fiscal.
Investimento social, infraestrutura e combate a paraísos fiscais No lugar do ajuste permanente, o economista propõe priorizar inclusão produtiva, infraestrutura e controle de evasão. “É preciso investir na inclusão produtiva, que envolve, sim, o repasse para benefícios como o Bolsa Família.” E rebate a crítica de que isso gera desequilíbrio: “Não, este dinheiro é para dinamizar a economia.”
Ele também defende investimento em infraestrutura com visão de retorno social e econômico: “Pouco
importa de onde o governo tira o dinheiro. Se não tiver o suficiente,
pode gerar déficit, usar conversão das reservas cambiais, emitir
dinheiro, aumentar a dívida… O que importa é para onde vai o dinheiro.” E cita um cálculo aprendido no trabalho com organismos internacionais: “Na ONU, a gente calcula que a cada R$ 1 investido em saneamento básico, R$ 4 são economizados em saúde.”
Ao mesmo tempo, Dowbor aponta a necessidade de reduzir a sangria via paraísos fiscais: “Também
é preciso reduzir a transferência de dinheiro para paraísos fiscais;
tem banco com mais de 30 filiais em paraísos fiscais, onde nenhum
cliente tem nome, é só um número.”
Tributação regressiva e o peso do juro sobre famílias e empresas O economista argumenta que a estrutura tributária brasileira amplia
desigualdades ao tributar fortemente consumo, afetando mais a base
social que gasta quase tudo para sobreviver. “No Brasil, metade da tributação é sobre o consumo. Isso é uma deformação radical brasileira.”
A partir daí, ele descreve como ricos mantêm grande parte da renda
disponível depois de satisfazer necessidades, enquanto a maioria paga
impostos em cada item essencial.
A crítica se conecta ao custo do crédito: “No
Brasil, a taxa de juros para as famílias é de 58% ao ano, para as
empresas, de 25%, enquanto na China os juros são limitados a 2% ao ano.” Na visão de Dowbor, esse desenho faz com que o capital se desloque do investimento produtivo para a renda financeira.
China como exemplo de dinheiro produtivo e Estado indutor Ao citar a China, Dowbor busca ilustrar como uma política de crédito
barato e planejamento pode acelerar transformação tecnológica e
ambiental com capilaridade empresarial. Ele afirma que o país decidiu
investir pesado em energia solar e, em vez de criar uma única grande
fabricante estatal de painéis, estruturou uma grande estatal de máquinas
e equipamentos para viabilizar a produção privada em larga escala.
“Resultado:
hoje o país tem milhares de empresas de produção de painéis solares. Em
qualquer cidade, um empreendedor compra as máquinas, pagando juros de
2%, e passa a produzir painéis solares.” Para o economista, o Estado
funciona como motor de arranque: assume o investimento pesado em
tecnologia e infraestrutura e deixa o setor privado multiplicar a
produção, com empregos, lucros e ganhos ambientais.
Captura política e “apropriação privada” do Estado Ao ser questionado sobre democracia e presidencialismo de coalizão,
Dowbor aponta um processo histórico de deformação institucional no
Brasil, associado ao financiamento empresarial de campanhas. “Em 1997, foi aprovado algo absurdo: o financiamento de campanhas políticas por empresas.” E relembra o julgamento do Supremo Tribunal Federal que derrubou a prática: “Depois
de 18 anos, no final de 2015, o Supremo Tribunal Federal se deu conta
que tinha sido violado o artigo 1 da Constituição, que diz que 'todo
poder emana do povo' —não das empresas, nem dos bancos.”
Na avaliação dele, esse período deixou marcas estruturais: “Houve
uma apropriação privada da política, que transformou radicalmente a
relação entre os sistemas público e privado, que se perpetuou.” E arremata com a crítica ao conluio entre rentismo e política: “Essa
articulação nefasta entre o financeiro, que não gera emprego, não
produz, e os políticos que participam desse tipo de lucro, é uma
deformação estrutural da economia.”
Ele conclui diferenciando investimento produtivo e especulativo — distinção que, segundo ele, se perde no debate nacional: “Eu
uso a China como exemplo porque ela assegura que o dinheiro seja
produtivo. Aqui chamamos aplicação financeira de investimento.”
Fonte: https://www.brasil247.com/economia/dowbor-revela-estrago-da-selic-bilionario-ganhou-r-400-mil-por-dia#google_vignette