O fundador da empresa de inteligência
norte-americana Stratfor, George Friedman, disse em entrevista à publicação
Business Insider que o mundo deve estar preparado para uma nova grande guerra.
Segundo Friedman, na história mundial não houve um
único século sem uma guerra que “pusesse em choque toda a ordem mundial da
altura”.
“A Guerra dos Sete Anos na Europa, as guerras
napoleónicas do século XIX, as grandes guerras mundiais – cada século teve
algo. Quer apostar que neste século não haverá algo? Aceitarei”, afirmou
Friedman.
Ele explicou como começam tais guerras sistémicas.
Quando países como a Alemanha, a Rússia e a China entram em decadência, o seu
lugar é ocupado por outros. O perigo desta situação é que os novos países
“ainda não atingiram o equilíbrio”.
“Em 1871 foi a reunificação da Alemanha e, em
resultado, começou um inferno. No início do século XX, o Japão aumentou o seu
poderio e depois tornou-se em um caos”, exemplificou. “Agora também observamos
uma mudança sistémica. Estejam preparados para uma guerra!”, concluiu Friedman.
Na sua opinião, a mesma situação descrita de
substituição da liderança de uns países por outros não é perigosa. O que é
perigoso é a posição que os novos países assumem.
Segundo Friedman, os territórios principais onde
podem ser iniciados conflitos são o Japão, a Polônia e a Turquia. São os países
que mais provavelmente substituirão as potências que estão perdendo a sua
influência.
Assim, Friedman prediz conflitos no Oriente Médio e
na Europa Oriental e uma guerra marítima entre o Japão e os EUA.
Ao mesmo tempo, na sua opinião, há pequena
probabilidade de um país usar armas nucleares contra o inimigo.
A instabilidade dos mercados de matérias-primas e
do setor financeiro nos últimos meses, bem como os últimos dados negativos
provenientes da China, mostram que a economia global está perto da falência,
opinou o vice-chefe do FMI David Lipton.
O
vice-diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), citado pelo
Financial Times, acha que é óbvio que a economia mundial está em um estado
muito grave. Segundo ele, na situação atual, altos funcionários e governantes
de todos os países devem tomar medidas urgentes para combater esta
instabilidade.
As
medidas que Lipton sugere visam estimular o crescimento da demanda.
A razão
dos problemas na economia mundial, de acordo com o economista, é a “diminuição
brusca do volume de capital global e dos fluxos comerciais”.
"Está
na hora de apoiar a atividade econômica e colocar a economia mundial em uma
base mais sólida", opina.
Cabe
lembrar que, em fevereiro, o volume das exportações e importações da China caiu
significativamente: os dados das exportações foram os piores desde 2009. Além
disso, em 2015 o PIB chinês registrou o valor mais baixo dos últimos 25 anos.
Brasileiro despreza latinidade, mas quer liderança regional
Uma pesquisa inédita de opinião pública confirmou o que a história e o
senso comum já sugeriam: o brasileiro despreza a América Latina, mas ao
mesmo tempo se vê como líder nato da região.
"A América Latina sempre se associou à colonização espanhola, e
isso já gera uma divisão com o passado português do Brasil", afirmou
Fernando Mourón
Foto: Divulgação/BBC Brasil / BBCBrasil.com
Apenas 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos, ante uma
média de 43% em outros seis países latinos (Argentina, Chile, Colômbia,
Equador, México e Peru).
E mais: quem mora no Brasil avalia que o país seria o melhor
representante da América Latina no Conselho de Segurança da ONU, mas não
quer livre trânsito de latinos por suas fronteiras nem priorizar a
região na política externa.
Os resultados estão na edição 2014/2015 do projeto
The Americas and the World: Public Opinion and Foreign Policy
(As Américas e o Mundo: Opinião Pública e Política Externa), coordenado
pelo Centro de Investigação e Docência em Economia (Cide) do México, em
colaboração com universidades da região.
No Brasil, o responsável pela iniciativa é o Instituto de Relações
Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), que aplicou 1.881
questionários no país.
Em uma das questões, os entrevistados deveriam apontar os gentílicos e
expressões com os quais mais se identificavam. A principal resposta foi
"brasileiro" (79%), seguida por "cidadão do mundo" (13%),
"latino-americano" (4%) e "sul-americano" (1%).
O Brasil foi o único entre os sete países da pesquisa em que o adjetivo
pátrio ficou entre as três principais opções dos entrevistados.
Argentinos, chilenos, colombianos, equatorianos e peruanos indicaram
"latino-americano", "sul-americano" e "cidadão do mundo". E a segunda e
terceira opção dos mexicanos depois de "latino-americano" foram,
respectivamente, "cidadão do mundo" e "norte-americano".
O estudo também fez a seguinte questão aos participantes: em qual região do mundo seu país deve prestar mais atenção?
Na mesma linha do item sobre identidade, o Brasil foi o único na
pesquisa a não priorizar a América Latina. Na opinião dos entrevistados,
o foco da política externa deve ser a África (24%), depois América
Latina (16%), seguida de perto por Europa (13%) e América do Norte
(9,5%).
Nos outros países a opção pela América Latina predominou, com percentuais de 57% (Argentina) a 30% (Chile e Peru).
Autoidentificação ambivalente
Para os autores da pesquisa, os resultados comprovam, com dados de
opinião pública, o que historiadores e cientistas sociais já apontavam: a
autoidentificação do brasileiro é tênue e ambivalente, marcada pela
percepção de pertencer a uma nação diferente dos vizinhos, seja pela
experiência colonial, língua ou processo de independência distinto.
"A primeira explicação é a colonização. América Latina sempre se
associou à colonização espanhola, e isso já gera uma divisão com o
passado português do Brasil", afirma o argentino Fernando Mourón,
pesquisador do Centro de Estudo das Negociações Internacionais da USP e
participante do estudo regional.
"Depois temos os processos de independência na região. Na América
espanhola houve guerras contra a Coroa e o reforço de uma identidade
cultural única, enquanto no Brasil o próprio regente português declarou a
independência."
A economia por muito tempo fechada aos vizinhos, a geografia
continental que dificulta conexões físicas e o histórico diplomático
também ajudam a explicar o "isolamento" brasileiro, avalia Mourón.
Sobre esse último ponto, em artigo ainda inédito sobre os resultados do
estudo, Mourón e os colegas da USP Janina Onuki e Francisco Urdinez
lembram que até o final da Guerra Fria diplomatas brasileiros
acreditavam que a melhor estratégia para aprimorar a inserção
internacional do país era manter distância de questões regionais.
"Uma das consequências foi que, até a metade dos anos 1980, as elites
brasileiras e a população em geral viram a América Latina não como
construção maior de identidade coletiva, mas apenas como a paisagem
geográfica imediata em torno do país", escrevem os autores.
Liderança contraditória
Ao analisar os dados da amostra, que é representativa de toda a
população dos países analisados, os pesquisadores concluem que os
brasileiros enxergam seu país como líder regional, mas em geral resistem
a possíveis implicações de assumir tal posição.
Questionados sobre qual país deveria assumir uma cadeira no Conselho de
Segurança da ONU caso o órgão abrisse uma vaga para a América Latina,
por exemplo, a maioria dos brasileiros (66%) indicou o próprio país.
O Brasil também foi a primeira opção dos entrevistados nos demais
países do estudo, exceto as outras duas maiores economias, Argentina e
México, onde os moradores também "elegeram" seus próprios países, com
60% e 54%, respectivamente.
Por outro lado, a maioria dos brasileiros (54%) discorda do livre
movimento de pessoas na região sem controles fronteiriços. A maior fatia
dos entrevistados também se opõe ao trabalho de sul-americanos no país
sem visto (66%) e rejeita (65%) a possibilidade de intervenção
brasileira em uma possível crise militar regional.
Quando o assunto é a "liderança pela carteira", ou seja, a ajuda
financeira a países menos desenvolvidos da região, 65% dos entrevistados
no Brasil disseram concordar com essa possibilidade.
Mas o índice do Brasil nesse item foi o menor de todos os países, e
ademais os pesquisadores alertam que os altos índices nas respostas
podem estar relacionados à tendência – identificada nos estudos de
opinião pública – de participantes a responder perguntas de fundo moral
baseados no que pensam ser algo social e politicamente correto.
Problemas na vizinhança
A partir do governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), a ênfase da
diplomacia brasileira na integração regional, como foco na América do
Sul, expõe o reconhecimento tácito da dificuldade do país em exercer
influência em todo o "continente" latino, avaliam Mourón e os
pesquisadores do Instituto de Relações Internacionais da USP.
Mas em geral, quando o assunto é opinião pública no Brasil, a América
Latina é vista mais como preocupação e problema do que benefício,
conclui o estudo.
Percepção que, afirma Mourón, acaba tendo respaldo na realidade, diante
da série de percalços que o país enfrentou na última década com os
vizinhos, como o episódio da nacionalização dos ativos da Petrobras na
Bolívia, a expulsão da Odebrecht do Equador, as barreiras de comércio
entre Brasil e Argentina e a frustrada sociedade com a Venezuela na
construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.
No
Brasil, corrupção bate tráfico de droga na indústria de lavagem de dinheiro
O volume de recursos públicos desviados no país
fez surgir uma sofisticada indústria de lavagem de dinheiro a serviço de
políticos, empresários e servidores públicos. A lavanderia brasileira tem hoje
estrutura profissional, com métodos cada vez mais difíceis de serem
descobertos. Na avaliação de investigadores, os crimes contra a administração
pública direcionam mais recursos sujos para a lavagem que o tráfico de drogas -
que tradicionalmente movimenta somas expressivas e sempre desafiou as
autoridades de combate a ilícitos.
Só nos inquéritos em curso a Polícia Federal
apura, atualmente, desvios de R$ 43 bilhões dos cofres da União. Desse total,
R$ 19 bilhões se referem às perdas da Petrobras investigadas na operação Lava
Jato. O montante é o triplo do admitido até agora pela estatal. O valor
recuperado ou bloqueado somente nessa operação é, por ora, de R$ 2,5 bilhões -
oito vezes mais que o valor de bens apreendidos de traficantes em todo o ano
passado.
"O dinheiro sujo hoje no Brasil não é só
droga, é principalmente desvio de recursos públicos, porque é muito fácil. É bi
(bilhão), bi e bi. A lavagem é assustadora", diz um dos chefes do combate
à corrupção na Polícia Federal. Estimativa da ONU divulgada em 2012 indica que,
considerando todas as esferas de governo, o desvio de recursos públicos já
chega a R$ 200 bilhões por ano no País.
Para o diretor do DRCI (Departamento de
Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional) do Ministério da
Justiça, Ricardo Saad, essa constatação é resultado da mudança de foco.
"Antes tinha-se a percepção de que era o tráfico (que mais lavava
dinheiro); hoje as autoridades estão mais voltadas em combater a corrupção. O
número de processos está muito nivelado."
Complexidade
Nas últimas duas semanas, o Estado ouviu 15
autoridades que atuam em casos de corrupção sobre os novos mecanismos
utilizados para reciclar as riquezas obtidas por organizações criminosas e dar
a elas fachada legal. Para delegados, procuradores, juízes e responsáveis pelo
setor de inteligência financeira, essa arte ficou mais complexa. "Tudo
ocorre no mundo das sombras. Mas, para ambos os crimes, as cifras são
expressivas, considerando apenas os casos conhecidos", disse o juiz
federal Sérgio Moro, que atua na Lava Jato.
De meros operadores do mercado clandestino de
câmbio, doleiros viraram "bancos" de dinheiro sujo e especialistas em
gerir o caixa 2 de empresários corruptores. Bancos internacionais oferecem a
clientes VIP produtos para ocultar suas fortunas no exterior, seja qual for a
origem. O dinheiro das quadrilhas brasileiras se desloca de tradicionais
paraísos fiscais na Europa e no Caribe para destinos na Ásia e Oceania, cujas
autoridades não têm tradição de colaborar com os investigadores brasileiros.
Principalmente em casos de corrupção, que
envolvem a blindagem de políticos e altos funcionários públicos, as
organizações criminosas contratam profissionais altamente especializados, os
chamados "gatekeepers" (porteiros ou "abridores de
portas"), como consultores financeiros, contadores e advogados. A tarefa é
organizar as operações financeiras complexas para movimentar o dinheiro de
origem ilícita e criar estruturas societárias para ocultar a real propriedade
dos valores.
'Terceirização'
"Uma das características da lavagem de
dinheiro moderna é a profissionalização, outra é a complexidade, e outra, a
internacionalidade. Essas pessoas, como o (doleiro Alberto) Youssef, são
lavadores de dinheiro terceirizados", afirma o procurador da Operação Lava
Jato Deltan Martinazzo Dallagnol. Ele explica que os criminosos de colarinho
branco estão dispostos a pagar altas comissões por uma operação supostamente
indetectável.
Em depoimentos prestados em regime de delação
premiada na Lava Jato, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto
Costa disse que, ao dividir as propinas milionárias do esquema na estatal, 60%
dos valores ficavam com partidos políticos e 20% cobriam custos, como a
montagem de empresas de fachada, o pagamento de tributos, a emissão de notas
frias e o pagamento de "gatekeepers". Os outros 20% eram divididos
entre ele próprio e o doleiro Alberto Youssef. "Se você for pensar,
ninguém precisava de Youssef ou de operador. Mas eles entram como catalisadores,
para facilitar a lavagem", acrescenta o procurador.
Tecnologia
Novas formas de "reciclar" dinheiro
sujo estão surgindo com a inovação tecnológica. É o caso das moedas virtuais,
como as "bitcoins", e dos meios de pagamento como cartões pré-pagos,
formas fáceis de fazer transitar fortunas sem chamar a atenção. "São eles
(os criminosos) correndo na frente e nós atrás", diz um dos chefes do
combate à corrupção da Polícia Federal. O que não significa que métodos
arcaicos tenham sido abandonados.
Um outro dirigente da corporação faz uma
autocrítica: "As pessoas também utilizam as estruturas mais simples porque
está correndo frouxo. A repressão do Estado não está sendo a contento para as
pessoas deixarem de fazê-lo".
O diretor-geral de Combate ao Crime Organizado da
Polícia Federal, Oslaim Santana, afirma que o Brasil tem feito nos últimos anos
acordos com outros países para receber informações sobre recursos desviados da
administração pública, escondidos no exterior, em troca de fornecer dados sobre
organizações internacionais de tráfico de drogas. "O que nos interessa, o
que mais aflige a população brasileira, é a corrupção. Eu digo a eles: 'Eu
combato o tráfico internacional, mas preciso saber quais são os brasileiros que
têm dinheiro lá fora'. Ingleses, franceses, americanos começaram a repassar
reportes (relatórios) a partir disso", diz.
'Lição'
Na avaliação do secretário nacional de Justiça,
Beto Vasconcelos, "não há afrouxamento, mas endurecimento da atuação do
Estado" no combate ao crime. Ele cita como exemplo a criação de órgãos de
inteligência financeira, como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras
(Coaf), a SuperReceita e o próprio Departamento de Recuperação de Ativos e
Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça.
Tem ainda o fator sorte: "Uma coisa que a
gente aprende é que não existe segredo eterno. Sempre vai ter alguém que vai
contar, um desentendimento no grupo criminoso e, sobretudo, a técnica do ex:
ex-mulher, ex-sócio, ex-empregado." As informações são do jornal "O
Estado de S. Paulo".