CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS

21 de dez de 2015

PARA REFLETIR...

Brasileiro despreza latinidade, mas quer liderança regional

Uma pesquisa inédita de opinião pública confirmou o que a história e o senso comum já sugeriam: o brasileiro despreza a América Latina, mas ao mesmo tempo se vê como líder nato da região.


"A América Latina sempre se associou à colonização espanhola, e isso já gera uma divisão com o passado português do Brasil", afirmou Fernando Mourón
"A América Latina sempre se associou à colonização espanhola, e isso já gera uma divisão com o passado português do Brasil", afirmou Fernando Mourón
Foto: Divulgação/BBC Brasil / BBCBrasil.com
Apenas 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos, ante uma média de 43% em outros seis países latinos (Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru).


E mais: quem mora no Brasil avalia que o país seria o melhor representante da América Latina no Conselho de Segurança da ONU, mas não quer livre trânsito de latinos por suas fronteiras nem priorizar a região na política externa.
Os resultados estão na edição 2014/2015 do projeto The Americas and the World: Public Opinion and Foreign Policy (As Américas e o Mundo: Opinião Pública e Política Externa), coordenado pelo Centro de Investigação e Docência em Economia (Cide) do México, em colaboração com universidades da região.
No Brasil, o responsável pela iniciativa é o Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), que aplicou 1.881 questionários no país.
Em uma das questões, os entrevistados deveriam apontar os gentílicos e expressões com os quais mais se identificavam. A principal resposta foi "brasileiro" (79%), seguida por "cidadão do mundo" (13%), "latino-americano" (4%) e "sul-americano" (1%).
O Brasil foi o único entre os sete países da pesquisa em que o adjetivo pátrio ficou entre as três principais opções dos entrevistados.
Argentinos, chilenos, colombianos, equatorianos e peruanos indicaram "latino-americano", "sul-americano" e "cidadão do mundo". E a segunda e terceira opção dos mexicanos depois de "latino-americano" foram, respectivamente, "cidadão do mundo" e "norte-americano".
O estudo também fez a seguinte questão aos participantes: em qual região do mundo seu país deve prestar mais atenção?
Na mesma linha do item sobre identidade, o Brasil foi o único na pesquisa a não priorizar a América Latina. Na opinião dos entrevistados, o foco da política externa deve ser a África (24%), depois América Latina (16%), seguida de perto por Europa (13%) e América do Norte (9,5%).
Nos outros países a opção pela América Latina predominou, com percentuais de 57% (Argentina) a 30% (Chile e Peru).

Autoidentificação ambivalente

Para os autores da pesquisa, os resultados comprovam, com dados de opinião pública, o que historiadores e cientistas sociais já apontavam: a autoidentificação do brasileiro é tênue e ambivalente, marcada pela percepção de pertencer a uma nação diferente dos vizinhos, seja pela experiência colonial, língua ou processo de independência distinto.
"A primeira explicação é a colonização. América Latina sempre se associou à colonização espanhola, e isso já gera uma divisão com o passado português do Brasil", afirma o argentino Fernando Mourón, pesquisador do Centro de Estudo das Negociações Internacionais da USP e participante do estudo regional.
"Depois temos os processos de independência na região. Na América espanhola houve guerras contra a Coroa e o reforço de uma identidade cultural única, enquanto no Brasil o próprio regente português declarou a independência."
A economia por muito tempo fechada aos vizinhos, a geografia continental que dificulta conexões físicas e o histórico diplomático também ajudam a explicar o "isolamento" brasileiro, avalia Mourón.
Sobre esse último ponto, em artigo ainda inédito sobre os resultados do estudo, Mourón e os colegas da USP Janina Onuki e Francisco Urdinez lembram que até o final da Guerra Fria diplomatas brasileiros acreditavam que a melhor estratégia para aprimorar a inserção internacional do país era manter distância de questões regionais.
"Uma das consequências foi que, até a metade dos anos 1980, as elites brasileiras e a população em geral viram a América Latina não como construção maior de identidade coletiva, mas apenas como a paisagem geográfica imediata em torno do país", escrevem os autores.

Liderança contraditória

Ao analisar os dados da amostra, que é representativa de toda a população dos países analisados, os pesquisadores concluem que os brasileiros enxergam seu país como líder regional, mas em geral resistem a possíveis implicações de assumir tal posição.
Questionados sobre qual país deveria assumir uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU caso o órgão abrisse uma vaga para a América Latina, por exemplo, a maioria dos brasileiros (66%) indicou o próprio país.
O Brasil também foi a primeira opção dos entrevistados nos demais países do estudo, exceto as outras duas maiores economias, Argentina e México, onde os moradores também "elegeram" seus próprios países, com 60% e 54%, respectivamente.
Por outro lado, a maioria dos brasileiros (54%) discorda do livre movimento de pessoas na região sem controles fronteiriços. A maior fatia dos entrevistados também se opõe ao trabalho de sul-americanos no país sem visto (66%) e rejeita (65%) a possibilidade de intervenção brasileira em uma possível crise militar regional.
Quando o assunto é a "liderança pela carteira", ou seja, a ajuda financeira a países menos desenvolvidos da região, 65% dos entrevistados no Brasil disseram concordar com essa possibilidade.
Mas o índice do Brasil nesse item foi o menor de todos os países, e ademais os pesquisadores alertam que os altos índices nas respostas podem estar relacionados à tendência – identificada nos estudos de opinião pública – de participantes a responder perguntas de fundo moral baseados no que pensam ser algo social e politicamente correto.

Problemas na vizinhança

A partir do governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), a ênfase da diplomacia brasileira na integração regional, como foco na América do Sul, expõe o reconhecimento tácito da dificuldade do país em exercer influência em todo o "continente" latino, avaliam Mourón e os pesquisadores do Instituto de Relações Internacionais da USP.
Mas em geral, quando o assunto é opinião pública no Brasil, a América Latina é vista mais como preocupação e problema do que benefício, conclui o estudo.
Percepção que, afirma Mourón, acaba tendo respaldo na realidade, diante da série de percalços que o país enfrentou na última década com os vizinhos, como o episódio da nacionalização dos ativos da Petrobras na Bolívia, a expulsão da Odebrecht do Equador, as barreiras de comércio entre Brasil e Argentina e a frustrada sociedade com a Venezuela na construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. 

Fonte: Terra Notícias

14 de dez de 2015

PARA REFLETIR E AGIR: OS BRASILEIROS QUEREM O SEU DINHEIRO DE VOLTA E NÃO APENAS OS CORRUPTOS PRESOS E INELEGÍVEIS !!!!!!!!!!!!!!!!



No Brasil, corrupção bate tráfico de droga na indústria de lavagem de dinheiro


O volume de recursos públicos desviados no país fez surgir uma sofisticada indústria de lavagem de dinheiro a serviço de políticos, empresários e servidores públicos. A lavanderia brasileira tem hoje estrutura profissional, com métodos cada vez mais difíceis de serem descobertos. Na avaliação de investigadores, os crimes contra a administração pública direcionam mais recursos sujos para a lavagem que o tráfico de drogas - que tradicionalmente movimenta somas expressivas e sempre desafiou as autoridades de combate a ilícitos.

Só nos inquéritos em curso a Polícia Federal apura, atualmente, desvios de R$ 43 bilhões dos cofres da União. Desse total, R$ 19 bilhões se referem às perdas da Petrobras investigadas na operação Lava Jato. O montante é o triplo do admitido até agora pela estatal. O valor recuperado ou bloqueado somente nessa operação é, por ora, de R$ 2,5 bilhões - oito vezes mais que o valor de bens apreendidos de traficantes em todo o ano passado.

"O dinheiro sujo hoje no Brasil não é só droga, é principalmente desvio de recursos públicos, porque é muito fácil. É bi (bilhão), bi e bi. A lavagem é assustadora", diz um dos chefes do combate à corrupção na Polícia Federal. Estimativa da ONU divulgada em 2012 indica que, considerando todas as esferas de governo, o desvio de recursos públicos já chega a R$ 200 bilhões por ano no País.

Para o diretor do DRCI (Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional) do Ministério da Justiça, Ricardo Saad, essa constatação é resultado da mudança de foco. "Antes tinha-se a percepção de que era o tráfico (que mais lavava dinheiro); hoje as autoridades estão mais voltadas em combater a corrupção. O número de processos está muito nivelado."

Complexidade


Nas últimas duas semanas, o Estado ouviu 15 autoridades que atuam em casos de corrupção sobre os novos mecanismos utilizados para reciclar as riquezas obtidas por organizações criminosas e dar a elas fachada legal. Para delegados, procuradores, juízes e responsáveis pelo setor de inteligência financeira, essa arte ficou mais complexa. "Tudo ocorre no mundo das sombras. Mas, para ambos os crimes, as cifras são expressivas, considerando apenas os casos conhecidos", disse o juiz federal Sérgio Moro, que atua na Lava Jato.

De meros operadores do mercado clandestino de câmbio, doleiros viraram "bancos" de dinheiro sujo e especialistas em gerir o caixa 2 de empresários corruptores. Bancos internacionais oferecem a clientes VIP produtos para ocultar suas fortunas no exterior, seja qual for a origem. O dinheiro das quadrilhas brasileiras se desloca de tradicionais paraísos fiscais na Europa e no Caribe para destinos na Ásia e Oceania, cujas autoridades não têm tradição de colaborar com os investigadores brasileiros.

Principalmente em casos de corrupção, que envolvem a blindagem de políticos e altos funcionários públicos, as organizações criminosas contratam profissionais altamente especializados, os chamados "gatekeepers" (porteiros ou "abridores de portas"), como consultores financeiros, contadores e advogados. A tarefa é organizar as operações financeiras complexas para movimentar o dinheiro de origem ilícita e criar estruturas societárias para ocultar a real propriedade dos valores.

'Terceirização'


"Uma das características da lavagem de dinheiro moderna é a profissionalização, outra é a complexidade, e outra, a internacionalidade. Essas pessoas, como o (doleiro Alberto) Youssef, são lavadores de dinheiro terceirizados", afirma o procurador da Operação Lava Jato Deltan Martinazzo Dallagnol. Ele explica que os criminosos de colarinho branco estão dispostos a pagar altas comissões por uma operação supostamente indetectável.

Em depoimentos prestados em regime de delação premiada na Lava Jato, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa disse que, ao dividir as propinas milionárias do esquema na estatal, 60% dos valores ficavam com partidos políticos e 20% cobriam custos, como a montagem de empresas de fachada, o pagamento de tributos, a emissão de notas frias e o pagamento de "gatekeepers". Os outros 20% eram divididos entre ele próprio e o doleiro Alberto Youssef. "Se você for pensar, ninguém precisava de Youssef ou de operador. Mas eles entram como catalisadores, para facilitar a lavagem", acrescenta o procurador.

Tecnologia


Novas formas de "reciclar" dinheiro sujo estão surgindo com a inovação tecnológica. É o caso das moedas virtuais, como as "bitcoins", e dos meios de pagamento como cartões pré-pagos, formas fáceis de fazer transitar fortunas sem chamar a atenção. "São eles (os criminosos) correndo na frente e nós atrás", diz um dos chefes do combate à corrupção da Polícia Federal. O que não significa que métodos arcaicos tenham sido abandonados.

Um outro dirigente da corporação faz uma autocrítica: "As pessoas também utilizam as estruturas mais simples porque está correndo frouxo. A repressão do Estado não está sendo a contento para as pessoas deixarem de fazê-lo".

O diretor-geral de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal, Oslaim Santana, afirma que o Brasil tem feito nos últimos anos acordos com outros países para receber informações sobre recursos desviados da administração pública, escondidos no exterior, em troca de fornecer dados sobre organizações internacionais de tráfico de drogas. "O que nos interessa, o que mais aflige a população brasileira, é a corrupção. Eu digo a eles: 'Eu combato o tráfico internacional, mas preciso saber quais são os brasileiros que têm dinheiro lá fora'. Ingleses, franceses, americanos começaram a repassar reportes (relatórios) a partir disso", diz.

'Lição'


Na avaliação do secretário nacional de Justiça, Beto Vasconcelos, "não há afrouxamento, mas endurecimento da atuação do Estado" no combate ao crime. Ele cita como exemplo a criação de órgãos de inteligência financeira, como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a SuperReceita e o próprio Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional do Ministério da Justiça.

Tem ainda o fator sorte: "Uma coisa que a gente aprende é que não existe segredo eterno. Sempre vai ter alguém que vai contar, um desentendimento no grupo criminoso e, sobretudo, a técnica do ex: ex-mulher, ex-sócio, ex-empregado." As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".


9 de dez de 2015

PARA REFLETIR...


Da Bélgica a Gaza: O trajeto de um fuzil europeu até chegar às mãos de extremistas

Reportagem da BBC mostra como armamentos de ponta usados na guerra da Líbia foram levados para radicais palestinos

 Grupo que atua na Faixa de Gaza vem exibindo armas de última geração (Foto: BBC/Brigada Al Quds)

Há três anos, especialistas em armas identificaram um fuzil belga de última geração nas mãos de militantes islâmicos na Faixa de Gaza.
Mas como uma organização listada como terrorista pela União Europeia e pelos Estados Unidos conseguiu esse armamento? O especialista Nic Jenzen-Jones e o repórter da BBC Thomas Martienssen rastrearam a jornada do fuzil.
Em 2 de outubro de 2012, a Brigada Al-Quds, braço armado da Jihad Islâmica, tomou as ruas de Rafah, no sul de Gaza, para marcar o 17º aniversário do assassinato de um integrante do grupo pelo Mossad, o serviço de inteligência de Israel.
Trata-se de um evento anual - uma parada militar onde os integrantes costumam exibir armas e munições mais recentes. E certamente havia algo novo naquela parada de 2012.
Entre o arsenal habitual de fuzis AK, metralhadoras de antigos regimes comunistas do Leste Europeu e rifles chineses, havia dois fuzis automáticos bem mais raros naquelas bandas - o belga F2000 e o russo AK-103.
Até então, essas duas armas raramente eram vistas com um mesmo grupo. Mas na guerra civil na Líbia, um ano antes, um F2000 Standard com lançador de granada LG1 havia sido documentado nas mãos de grupos favoráveis ao ex-líder Muammar Khaddafi e, depois, de forças rebeldes - bem como uma variação do AK-103, o AK-103-2.
Então como essas armas chegaram à Líbia, e como foram de lá até Gaza? Um ex-rebelde líbio, que aqui será chamado de Ahmed, pode contar parte desta história.
A origem das armas
Após a queda de Trípoli para forças anti-Khaddafi, em agosto de 2011, a maior parte das facções rebeldes mudou o foco para o sul do país, para as cidades de Sirte e Sabha. Um dos últimos bastiões fiéis a Khaddafi, Sabha era o alvo seguinte para Ahmed e sua milícia.

A unidade de Ali e os dois rifles F2000 (à esq. e ao centro) (Foto: BBC/Divulgação) 
 A unidade de Ali e os dois rifles F2000 (à esq. e ao centro) (Foto: BBC/Divulgação)
Um F2000 nas mãos de um dos combatentes da milícia de Ali (Foto: BBC/Divulgação) 
Um F2000 nas mãos de um dos combatentes da milícia de Ali (Foto: BBC/Divulgação)
Mas os rebeldes chegaram tarde. Sabha foi liberada em 20 de setembro e eles só aportaram por lá dois dias depois. Perderam a maior parte da agitação, porém ouviram muitas histórias de um ex-estudante chamado Ali, jovem como Ahmed. Um desses casos era sobre um incidente registrado no dia anterior, no subúrbio sul de Sabha.
"Nós mantínhamos um checkpoint logo na saída de Sabha. Um carro chegou e o vidro se abaixou", disse Ali. "O homem disse ser um oficial da 32ª Brigada e pediu que o deixasse passar. Não tínhamos bandeiras revolucionárias na época, então eles devem ter pensado que éramos forças fiéis a Khaddafi."
Ali decidiu capturar o oficial e sua equipe, bem como seu armamento pessoal - dois modernos fuzis AK, uma pistola dourada e fuzis estranhos que chamavam, erroneamente, de "o FN francês".
Canais legais
A venda de armas belgas ao regime de Khaddafi havia sido acertada em maio de 2008.
A fabricante, FN Herstal, baseado em Liège, se comprometera a entregar 367 fuzis F2000 com lançador de granada, 367 submetralhadoras P90, 367 pistolas 5.7, 50 revólveres Browning "Renaissance", 30 metralhadoras leves Minimi, 2 mil lançadores não-letais FN 303 e mais de 1 milhão de diferentes munições. O pacote sairia por mais de 12 milhões de euros.
A ONU baniu a venda de armas à Líbia por muitos anos, mas o país africano voltou a ter algum crédito na comunidade internacional quando prometeu destruir suas armas químicas e descartar a produção de armamentos de destruição em massa. O embargo da ONU foi levantado em 2003, e um veto semelhante da Uniao Europeia caiu em 2004.
As armas belgas eram necessárias, segundo o governo da Líbia, para escoltar um comboio de ajuda humanitária até a conflituosa região de Darfur, no Sudão. A FN Herstal, maior exportadora de armas militares pequenas da Europa, diz que a venda foi legal, e que não foi a única empresa europeia a fazer negócios com a Líbia na época.
Em seis anos após o fim do embargo europeu, a União Europeia já havia concedido licenças de venda de armas para a Líbia no valor de 834 milhões de euros. Empresas no Reino Unido e na Itália estavam entre aquelas que aproveitaram a onda.
Em novembro de 2009, as armas do acordo belga desembarcaram na Líbia e foram equipar a 32ª Brigada, conhecida como brigada "Khamis" por ser comandada pelo filho mais novo de Khaddafi, Khamis Khaddafi.
Segundo a ONG Human Rights Watch, a brigada cometeria uma série de violações de direitos humanos, entre elas a execução sumária de 45 presos em Salahaddin, perto de Trípoli, em 23 de agosto de 2011.
Conexão russa
A Rússia também vinha fornecendo armas à Líbia.
No final de 2003 ou início de 2004 - pouco depois do fim do embargo - a Líbia havia começado negociações para comprar um leque amplo de armas e munições, incluindo armamento antitanque e sistemas de defesa aérea portátil (Manpads). Um desses acordos incluiu o fuzil automático AK-103-2.

A Brigada Al-Quds na parada em 2011 (Foto: BBC/Brigada Al Quds) 
A Brigada Al-Quds na parada em 2011 (Foto: BBC/Brigada Al Quds)

Um relatório obtido pela consultoria em inteligência Armaments Research Services (Ares), pela Human Rights Watch e por outras ONGs revelou que a Líbia fez pelo menos três pedidos por fuzis AK-103-2 em um contrato firmado em abril de 2004.
O primeiro pedido, em setembro de 2004, incluía 60 mil fuzis, cada um com quatro pentes, baioneta, kit de limpeza, alça e recipiente de óleo. Mas quando a guerra civil estourou na Líbia em 2011, já havia mais de 200 mil desses modernos fuzis espalhados pelo país.
Posteriormente, quando o conflito esfriou, Ahmed, Ali e seus companheiros combatentes entregaram a maioria de suas armas, incluindo um F2000, ao novo governo.
Última viagem
O segundo fuzil F2000 que Ali tinha capturado acabou sendo repassado a um traficante de armas em Misrata chamado Khaled, que estava angariando armamentos para doar a militantes na Faixa de Gaza.
Localizado pela consultoria Ares, por meio de uma fonte conhecedora do mercado de armas da Líbia, Khaled confirmou ter sido responsável por um envio de armas para Gaza, que incluiu um fuzil F2000 e um AK-103-2, entre outros modelos de AK-103, todos enviados gratuitamente.
"Enviamos para ajudar o povo de Gaza", disse ele.

Parada é usada por grupo radical palestino para exibir poderio bélico (Foto: BBC/Brigada Al Quds)Parada é usada por grupo radical palestino para exibir poderio bélico (Foto: BBC/Brigada Al Quds)
Assim como o fuzil belga FN Herstal F2000 tinha sido identificado incorretamente pelos rebeldes na Líbia como a "FN francesa", o AK-103-2 foi classificado em 2012 em Gaza como o "israelense Kalashnikov". Khaled e seus amigos se deleitaram ao fornecer a militantes palestinos o que imaginavam ser uma arma israelense.
A Brigada Al-Quds continua a exibir essas armas. O AK-103-2 e o F2000 foram documentados em sua posse em agosto de 2015. O grupo confirmou recentemente que ainda dispõe do F2000.
Fuzis F2000 também têm aparecido nas mãos de militantes islâmicos na Península do Sinai, no Egito. Como aqueles em Gaza e na Líbia, os modelos receberam o lançador de granadas LG1 debaixo do cano.
Talvez não seja surpresa, dado o volume importado pela Líbia, mas os fuzis AK-103-2 são comuns no interior do país - foram empregados no assassinato, pelo grupo autodenominado Estado Islâmico, de 30 cristãos etíopes na Líbia em abril - e têm proliferado por toda a região do Oriente Médio e norte da África.
Integrantes do Hamas têm sido fotografados com essas armas, assim como combatentes palestinos em comitês de resistência popular e na Frente Popular para Libertação da Palestina.
Relatórios de um painel da ONU sobre a Líbia indicam, entretanto, registros da presença do AK-103 também no Mali, na Tunísia e na Nigéria.
Mas muitas outras armas, não apenas o F2000 e e AK-103-2, foram saqueadas de estoques da Líbia ou dominadas por milícias durante a guerra civil da Líbia. O regime líbio tinha se armado até os dentes e seu rápido colapso no curto e sangrento conflito de 2011 fez do país uma grande liquidação de armas para militantes em todo o mundo.
Nic Jenzen-Jones é diretor da consultoria de inteligência Armament Research Services (Ares)
Fonte: Terra Notícias

2 de dez de 2015

PARA REFLETIR....



Em Setembro o editor de Teologia Brasileira, Franklin Ferreira, falou no V Encontro Teológico da Igreja Batista do Morumbi-SP, que tratou do tema “Cristianismo, arte e cultura”, com Luiz Felipe Pondé, que lhe concedeu esta rápida entrevista.

1) O senhor foi ateu durante muito tempo. Hoje crê em Deus. Por que tal mudança?
Permaneço um ateu filosoficamente, no sentido de que não me sinto atraído ou necessitado de religião, apesar de não julgá-las uma experiência menor. Acho o ateísmo uma versão filosófica simplista. Interesso-me pela mística porque muitas vezes tenho a impressão de que o mundo é sustentado por alguma forma de beleza e misericórdia.
  
2) Qual a importância da Bíblia para o senhor?
Livro de sabedoria, memória ocidental, “lugar” onde tomamos conhecimento deste “personagem” Deus, que acho de uma elegância inigualável. Ler a Bíblia me acalma.

3) Quais os autores Cristãos que o senhor leu que foram mais significativos?
Santo Agostinho, literatura monástica, Pascal e Dostoievski. Aprendi um pouco mais acerca da minha humanidade lendo-os.

4) Há espaço para a fé Cristã na esfera pública?
Sim, se a população cristã eleger representantes que defendam valores a ver com a crença, mas jamais fundamentando-os em argumentos bíblicos porque o Estado é laico. Os cristãos devem encontrar formas de defender suas ideias dentro de um jogo conceitual sem referência a fé, mas usando termos da filosofia e do comportamento humano histórico.

5) Que livros o senhor julga importantes para formar uma mentalidade crítica frente à esquerda?
Pra começar, a coleção de cinco livros que acaba de sair pela É Realizações chamada Biblioteca de Crítica Social. Os livros de Roger Scruton são muito contemporâneos e úteis nesse debate.

6) Qual a importância da fé Cristã na civilização ocidental? 
Fundamento dela. A fé cristã é a cultura sobre a qual grande parte dos valores ocidentais se desenvolveram, como a ideia de igualdade entre os seres humanos, a ideia de caridade como amor social ao próximo, a ideia de pecado e autoconhecimento, a busca de uma verdade interior, e com isso se deu as bases da psicologia profunda, entre outras coisas.

7) Por que as esquerdas enfatizam tanto a noção da “privatização da fé” (laicização)? 
Para manter a religião diante da TV e do computador. Para garantir que a dogmática religiosa não invadirá o espaço público.

8) Em que o Cristianismo é superior à esquerda? 
Entre outras coisas pela sua sensibilidade a uma natureza humana sofrida e confusa, presente no conceito de pecado.

9) A teologia da libertação seria uma interpretação legítima da fé Cristã? 
Só no seu aspecto de herdeira do carisma profético hebraico de crítica social, não na sua hermenêutica marxista.

10) Quais serão suas próximas publicações?
Estou trabalhando num livro de História da filosofia para corajosos (título provisório), inspirado na crítica nietzschiana. Também pretendo escrever um livro sobre os Salmos, texto místico por excelência da Bíblia hebraica

Fonte: http://www.teologiabrasileira.com.br/teologiadet.asp?codigo=471